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Regras de português defasadas: além de não ajudar, elas podem atrapalhar na clareza textual.

  • 14 de jul. de 2021
  • 5 min de leitura


As mudanças das línguas e a sensação de decadência social.


As línguas mudam. O português brasileiro que falamos hoje não é igual ao português europeu, moderno ou antigo. Apenas as línguas mortas, como o latim e o sânscrito, não mudam.

Apesar de naturais e inevitáveis, as mudanças linguísticas costumam ser interpretadas como sinais de corrupção e decadência cultural. O linguista Robert L. Cooper dá um exemplo histórico disso. Segundo Cooper, a crença de que a mudança linguística representava corrupção e decadência era especialmente popular no século XVIII. Por isso, o latim e o grego eram tão valorizados na educação formal. A antiguidade dessas línguas era responsável pelo seu grande prestígio. Por outro lado, a mesma crença levava as línguas europeias modernas a serem consideradas inferiores e decadentes.

Essa associação entre antiguidade e prestígio continua influenciando a maneira como muitas pessoas avaliam a língua. Inclusive, no Brasil, ainda é comum tratar o português europeu (mais antigo que o brasileiro) como a variedade linguística mais correta e prestigiosa, enquanto características próprias do português brasileiro são vistas como desvios ou erros, sobretudo nas gramáticas mais antigas.



Prestígio ou clareza? O debate sobre a colocação pronominal.


A colocação pronominal é um bom exemplo de como algumas gramáticas e manuais de redação estão descolados da realidade. Embora a próclise (o pronome antes do verbo) seja a posição mais frequente e natural no português brasileiro, muitos manuais de redação continuam recomendando construções enclíticas (o pronome depois do verbo), mais características do português europeu.

Vou citar o exemplo de um manual de redação do Judiciário, sem dizer exatamente qual é. O manual condena os usos correntes de próclise, embora essa seja a construção mais usada no português brasileiro. Pior ainda, o manual recomenda o uso da mesóclise — uma construção que só existe em textos muito arcaicos, como a Bíblia — para evitar a próclise:


Construções recomendadas pelo Manual do Judiciário

Construções típicas do português brasileiro

As reuniões iniciar-se-ão no mês de março

As reuniões se iniciarão no mês de março

A empresa enviou-nos um convite.

A empresa nos enviou um convite.

Eu devo-lhe solicitar

Eu devo lhe solicitar

Os exemplos do manual do Judiciário mostram como construções consideradas erradas pelos gramatiqueiros podem ser perfeitamente legítimas. Para os linguistas, menos preocupados em julgar, e mais preocupados em entender, a próclise já se incorporou ao português brasileiro e, portanto, não pode ser considerada um erro.

Já do ponto de vista da linguagem clara, o critério relevante não é o suposto prestígio da construção linguística, mas sua familiaridade para o leitor. Construções linguísticas mais familiares e frequentes tendem a ser compreendidas com maior facilidade do que as raras ou pouco usuais, como apontam as pesquisas. Diante desse fato, a próclise deve ser preferida, e não só tolerada, quando o objetivo é escrever claramente.

A colocação pronominal, contudo, não é um caso isolado de prescrições defasadas.


Convenções linguísticas sem impacto na clareza


Vimos acima um exemplo de como regras defasadas podem prejudicar a clareza do texto, como é o caso da regra que prescreve o uso da mesóclise. Veremos agora regras que são indiferentes do ponto de vista da clareza textual.

Boas gramáticas e manuais de redação acompanham as mudanças da língua. Os manuais que não fazem isso estão fadados a repetir convenções linguísticas sem sentido, como as de colocação pronominal que vimos no manual de redação do Judiciário.

Há uma enormidade de outros tipos de construções que já fazem parte do português, mas são constantemente condenadas por manuais de redação. Aqui estão alguns poucos exemplos dados pelo linguista Cláudio Moreno:



Construção consolidada pelo uso no português brasileiro

Construção de acordo com as convenções linguísticas defasadas

Motivo da proibição da construção

Hoje é dia dele voltar para casa

Hoje é o dia de ele voltar para casa.

É proibido contrair a preposição "de" com o artigo antes do sujeito.

Ele educa através de exemplos.

Ele educa por meio de exemplos.

É proibido usar "através" com o sentido de por meio de.

João assistiu o filme.

João assistiu ao filme.

É proibido usar o verbo assistir como transitivo direto.

Ninguém soube dizer aonde o juiz está.

Ninguém soube dizer onde o juiz está.

É proibido usar "aonde" com verbos que não exijam a preposição a.



É importante notar que as construções acima ou já foram consagradas: 1) por gramáticos renomados — Celso Pedro Luft e Evanildo Bechara registram o uso legítimo da contração de preposição com o artigo antes do sujeito; 2) ou por escritores famosos — entre outros, Camões, Antônio Vieira, Tomás Antônio Gonzaga usavam indiferentemente o onde e o aonde; 3) ou pelo uso dos falantes e escritores atuais — o verbo assistir, inclusive, pode ser colocado na voz passiva (o filme foi assistido), fato que não ocorreria com verbos que pedem preposição; 4) ou por dicionários renomados (por exemplo, o Houaiss já registra "através" com o sentido de por meio de).

As regras acima são convenções arbitrárias de etiqueta linguística. No entanto, diferentemente de outras convenções — como as de vestimenta —, as convenções linguísticas raramente são questionadas, mesmo as mais arbitrárias.

Convenções linguísticas são possivelmente o último repositório de autoridade inquestionada por pessoas educadas em uma sociedade secular, de acordo com a linguista Deborah Cameron. É claro, nem todas as convenções são infundadas. Por exemplo, escrever textos de interesse público de forma clara é uma convenção fundada em princípios democráticos. Da mesma forma, as regras de escrita do movimento plain language (linguagem clara) são convenções fundadas em evidências.

É inevitável, somos seres sociais e estamos cercados de convenções. Mas, ainda que com limites, podemos escolher quais queremos seguir ou abandonar. Cabe, então, a questão: que convenções estamos seguindo? Baseadas em argumentos de autoridade ou em evidências? Baseadas em valores excludentes ou inclusivos?


Conclusão: as regras linguísticas que importam são as que melhoram a comunicação


Em termos de linguagem clara, não é tão importante aquilo que os gramatiqueiros consideram certo, bonito ou elegante. O que importa é o que torna o texto claro, ou seja, a escolha de palavras e construções linguísticas mais familiares. Isso, necessariamente, implica o uso do português mais atual.

A sociedade muda e a língua segue com ela. Se queremos escrever para as pessoas de hoje, devemos usar a língua de hoje, tal como ela é. Toda boa prescrição de conduta vem precedida de uma boa descrição do mundo. Por isso, a prescrição linguística para tornar os textos claros é: use palavras e construções familiares, mesmo que, por vezes, elas sejam consideradas incorretas em alguns círculos de pessoas, que adoram regras defasadas.

É claro, se você tiver que submeter um texto a um superior hierárquico que adore regras defasadas, você tem duas opções: 1) se adequar estrategicamente às regras de seu superior; ou 2) contestar as regras arbitrárias em favor de princípios democráticos e inclusivos. Agora que você tem consciência linguística crítica sobre a arbitrariedade de determinadas convenções, sei que você fará a escolha certa de acordo com o contexto em que você estiver.


 
 
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